Culto a Yemanjá


Culto a Yemanjá



Texto de Luiz Antonio Simas


Como virou quase uma tradição de fim de ano e uma turma já me pediu para circular novamente, vai aí o meu velho textinho instrumental para os macumbeiros de ocasião, que sofrem do que chamo de "síndrome de Vinicius de Moraes" (não entendia patavina de orixá, inquice e vodum - como vários letristas da MPB - errou tudo nas letras dos afro-sambas, transformou Ossain em traidor, pintou os cavacos e fez coisas lindas e absolutamente eternas sobre o babado): a turma que aproveita o réveillon para virar subitamente - no que, aliás, faz muito bem - devota de Iemanjá.


IEMANJÁ PARA OS DEVOTOS DE OCASIÃO


Eis que chega o fim do ano e o babado se repete: muitos cariocas e turistas se transformam em devotos potenciais de Iemanjá. Mesmo aqueles que não fazem a mais vaga ideia sobre o que é um orixá jogam flores no mar, pulam ondas, fazem pedidos, chamam, cheios de intimidade, o orixá de Mamãe Sereia e o escambau. Celebridades de ocasião, então, adoram a papagaiada e gostam de lançar barquinhos no réveillon da Ilha de Caras. É a folclorização – para o bem e para o mal – do rito. Há os que, sem saber cantar ou saudar a orixá, apelam logo para o refrão do samba de 1976 do Império Serrano e mandam na lata, achando que é ponto de macumba:


Ogunté, Marabô,

Caiala e Sobá

Oloxum, Inaê

Janaína, Iemanjá


Resolvi, portanto, prestar um serviço de utilidade pública aos devotos de ocasião e explicar o que é que o refrão acima significa, palavra por palavra. Ao trabalho:


Ogunté – É uma qualidade importantíssima de Iemanjá entre os nagôs. Em alguns mitos é a mãe de Ogum; em outros é a mulher de Ogum Alabedé. É uma Iemanjá guerreira, jovem, que quando dança porta uma espada. Cuidado com ela; está muito longe de ser a sereia maternal que o sincretismo consagrou. Ogunté ensinou a Ogum como se guerreia e se apresenta sempre ao lado dele. Imaginem. As filhas de Ogunté que conheço não são moles.


Marabô – Aqui temos um probleminha bobo. Iemanjá Marabô simplesmente não existe. Marabô é uma corruptela de Barabô, um dos nomes de Exu. A denominação vem de um famoso cântico muito executado no Brasil e em Cuba : Ibarabô, agô mojubá, Elegbara… ( algo como “Eu homenageio e peço a proteção de Elegbara” ) . O que significa, então, o Marabô no samba ?


É provável que a citação do samba venha de um dos cânticos mais famosos de Iemanjá no candomblé: Awá ààbò à yó, Yemanja … Em geral, o povo de santo canta o início ( awá ààbò ) dizendo “Marabô a yó…” , o que não tem sentido preciso em português. A frase yorubá significa algo como “estamos protegidos, Yemanjá.” Quebrei a cabeça para saber de onde saiu esse Marabô. Acho que a citação provavelmente vem do início desse canto. Justifico, portanto, o Marabô no samba dizendo que é uma adaptação para a sonoridade do português da saudação "Iemanjá nos protege".


Kayala – Essa é mole. É um dos nomes de Quissimbe, o inquice banto ( quase a mesma coisa que o orixá para um nagô ) responsável pelos mistérios das águas. É corruptela de Nkaia Nsala, que significa literalmente “avó da vida”. É uma entidade velha e maternal, cujo culto desenvolveu-se na região do Congo-Angola. Seu culto no Brasil permanece, em larga medida, graças aos conhecimentos da venerável casa de Angola Kupapa Unsaba e pelos descendentes de Tatetu Apumandezo, patriarca do culto muxicongo no Brasil. Mojubá.


Sobá – É uma das formas de se chamar no Brasil uma qualidade de Iemanjá denominada “Assabá”. Orixá velho e poderoso, aparece nos mitos de Ifá mancando e fiando algodão. Sua dança é venerável e lenta.


Oloxum – É a denominação dada aos sacerdotes de Oxum, a senhora dos rios e cachoeiras. É também um dos nomes de Oxum no Xambá nordestino – culto em que minha avó foi iniciada. Achei interessante e meio fora de prumo a citação a Oxum – um outro orixá das águas ligado ao instinto maternal – no samba. Como, entretanto, é carnaval (sim, reveillon é carnaval), vale tudo, inclusive inventar essa Iemanjá Oloxum e pedir que ela, apesar de não existir, nos proteja.


Inaê - Um dos nomes da rainha do mar. Segundo Yeda Pessoa de Castro – grande conhecedora das línguas africanas no Brasil – o termo tem origem fon ( povo jeje, do antigo Daomé ) e deve vir de inon (mãe) e nawé (um título respeitoso).


Janaína - Uma das formas sincréticas de se falar de Iemanjá no Brasil. É muito citada nos pontos de umbanda.


Iemanjá – Eis a dona da festa! A poderosa orixá que, na África, comanda os rios que estão chegando ao mar. Para os iorubás, o orixá ligado ao axé dos oceânos é Olokum. Como o culto a esta poderosa entidade – Olokum – quase sumiu no Brasil, Iemanjá passou a ser considerada por aqui a senhora das águas marítimas. No país Yorubá, as oferendas a Iemanjá são feitas no encontro das águas do rio com o mar.


Para os que querem saudar devidamente Iemanjá, uma dica: vale pronunciar, sem dar piti e gritar a ponto de assustar a orixá, simplesmente "Èéru Iya": Mãe das espumas das águas – saudação que faz referência às espumas formadas pelo encontro das águas do rio com o mar.


(Postagem baseada em um texto do Pedrinhas Miudinhas. A turma podia parar de me pedir pra postar e comprar o livro, pô.)

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