Como nasce um terreiro de Umbanda? Por Pai Ronaldo Linares




Como nasce um terreiro de Umbanda? 
Por Pai Ronaldo Linares 


Para explicar melhor este tema, vamos contar uma breve história fictícia, mas que ocorre em muitas ocasiões. 
Geralmente, o adepto de hoje da Umbanda é aquela pessoa que, depois de passar por médicos, curandeiros, pastores, padres, adivinhos, gurus e outros tantos, encontra alguém que lhe sussurra ao ouvido: 

- Eu conheço uma Mãe-de-Santo que vai resolver sua vida. Pacientemente ele vai, com muita desconfiança, ao terreiro e lá chegando encontra várias pessoas vestidas de branco e pensa que foi levado a um hospital, pois está diante de vários enfermeiros. Recebe uma ficha, e depois de algum tempo ele ouve os atabaques soarem e tem início uma “cantoria” totalmente desconhecida para ele. 

Depois de ouvir alguns cânticos, algumas pessoas vestidas de branco se ajoelham, batem no peito e soltam um grito longo e estridente; outras se abaixam como se fossem de muita idade. 

A essa altura, ele está ainda mais confuso e pensa que foi parar em um manicômio. Sente uma vontade enorme de ir embora, mas alguém chama o número da sua ficha e ele resolve entrar. Alguém lhe diz: 

- Venha falar com o Preto-Velho. 

- Com quem? Pergunta ele sem entender nada. 

- Com “Pai João”, - esclarece a pessoa de branco. 

Ele olha para a frente, para os lados do terreiro, e fala: 

- Não vejo Preto-Velho algum. 

– Nem vai ver, - responde a pessoa de branco – ele está incorporado na “Mãe Laurentina”, a chefe do terreiro. 

- Venha, ele está à sua espera. 

Ele, então, senta-se à sua frente, em um banquinho de madeira, e leva logo uma baforada de cachimbo na cara. Nada consegue entender do que fala a entidade, pois é um tal de “mi zin fio” pra cá e “mi zin fio” pra lá, e nada, ele não entende coisa alguma. Finalmente, um cambono percebe o seu embaraço e vai traduzir o que diz o Preto-Velho. Após alguma conversa com a entidade, ele fica sabendo que é médium e precisa vestir roupa branca para trabalhar no terreiro. 
Se ele for uma pessoa vaidosa, pensará: 
“Que bom, sou médium”. Mas se é uma pessoa humilde, pensa: 
“E agora? O que é que eu faço com isso?” 
Mais tarde, o cambono explica-lhe que, passando a trabalhar no terreiro, a sua vida ira melhorar gradativamente. Como ele já passou por vários lugares e nada mais tem a perder, concorda com a ideia e, na semana seguinte, já faz parte da corrente mediúnica, camboneando as entidades e desenvolvendo a sua mediunidade. 
 Após algumas semanas, ele sente sua vida mais equilibrada e quando menos espera ajoelha-se, bate no peito e grita. Ocorre sua primeira incorporação. Passa o tempo e ele, servindo de “cavalo” às suas entidades, começa a dar consultas e passes mediúnicos. 

Cada vez mais suas entidades são procuradas pelos assistentes. Começa então seu maior problema: os ciúmes de alguns médiuns mal preparados mental e espiritualmente. 

Um dia, um desses médiuns chega ao pé do ouvido da Mãe-de-Santo e diz: 

“Ele está querendo tomar seu lugar”. 

A Mãe-de-Santo determina, então, muito democraticamente: 

“A partir de hoje, cada médium só pode dar três consultas”. 

A situação torna-se insustentável e um dia ele coloca a imagem de sua entidade debaixo do braço e diz: 

“Não trabalho mais neste lugar. Vai para casa, coloca a imagem em cima do guarda-roupa e, se é mulher, deita-se e chora a noite inteira; se homem, fala meia dúzia de palavrões, jura que nunca mais irá incorporar e pensa que seus problemas acabaram. 

Ledo engano: é aí que eles começam. 

Alguns assistentes que se consultavam com suas entidades ficam preocupados com sua ausência e começam a indagar do seu paradeiro. Alguém chega a estas pessoas e diz: 

“Olha, ele não trabalha mais aqui, mas eu sei onde ele mora”. 

Começa então uma romaria à casa do médium e essas pessoas imploram por sua ajuda, pois estavam se consultando com sua entidades e os trabalhos ficaram pela metade. 

Pedem então que o médium incorpore pelo menos uma vez para terminar o trabalho começado. O médium tira a imagem de cima do guarda-roupa e, ali mesmo, na sala ou na cozinha, incorpora as entidades para atender àquelas pessoas. 

A procura pelo médium torna-se cada vez mais intensa e os trabalhos passam a ser realizados na garagem. 

A essa altura, alguém mais preocupado diz: 

“Vamos abrir legalmente um terreiro antes que a polícia nos prenda”. 

Está funcionando mais um terreiro de Umbanda com seus novos adeptos. 

Quando o terreiro é bem dirigido, cresce material e espiritualmente, aumentando cada vez mais o número de médiuns, cambonos e assistentes. 

Se o terreiro não é bem dirigido, dará origem a novos médiuns descontentes que, possivelmente, originarão novos terreiros. 

Este é um dos motivos do crescimento da Umbanda, muitas vezes de forma desordenada e muitas vezes sem a devida preparação dos seus dirigentes. 

Texto extraído do livro “Iniciação à Umbanda” de Ronaldo Antonio Linares, Diamantino Fernandes Trindade e Wagner Veneziani Costa - Editora Madras

Nota
O caso acima é apenas um exemplo.

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