Tráfico de Escravos, Culto de Orixá e Candomblé Baiano




Tráfico de Escravos, Culto de Orixá e Candomblé Baiano 


O texto abaixo é uma adaptação livre de parte editada do texto original de Pierre Verger, a partir do título Notas Sobre o Culto aos Orixás e Voduns. 
Pierre Verger. São Paulo: Edusp. Recomendo a quem queira se aprofundar no assunto, tanto o título citado quanto Orixás, do mesmo autor, pela Editora Corrupio. 


Os primeiros escravos foram introduzidos no Novo Mundo em 1502, em virtude de um edito real que permitiu o transporte de escravos negros da Espanha para Hispaniola (que, mais tarde, se tornou República Dominicana e Haiti), pois a escravidão não existia na Península Ibérica. O costume outrora estabelecido pelos mouros havia subsistido entre os cristãos, e o tráfico implantou-se entre Sevilha, em particular, e o litoral norte e oeste da África. 

Esses negros, importados para as Antilhas, eram destinados aos trabalhos nas minas, e o Padre Bartolomé de las Casas tendo observado “os bons resultados” obtidos com estes escravos africanos e penalizando-se com o destino dos índios, que não resistiam aos trabalhos agrícolas, “imaginou um meio engenhoso de salvar a vida de seus catecúmenos e, ao mesmo tempo, salvar a alma dos outros”: incitou a coroa da Espanha a autorizar o Tráfico dos Negros. 

No Novo Mundo, os conquistadores espanhóis e os Bandeirantes portugueses (aos quais, mais tarde, se juntaram os colonos ingleses, franceses e holandeses) cristianizavam os índios, “para a salvação de suas almas”, como era devido, e procuravam fazê-los trabalhar em suas fazendas, engenhos, e minas. É difícil avaliar o numero total de escravos assim transportados, após a “filantrópica” iniciativa do Padre Bartolomé de las Casas. 

As cifras variam muito. A Enciclopédia Católica fala de doze milhões, e outras fontes chegam a mencionar cinquenta milhões. Abaixo um texto adaptado do original, Instituto Orumilá de Cultura, Dados levantados por Julvan Moreira de Oliveira em seu projeto de pesquisa apresentado como parte dos exames de seleção ao Programa de Mestrado em Educação, na Faculdade de Educação da USP, em outubro de 1995. 

Durante a escravidão todos os cativos deveriam ser batizados segundo determinação da Coroa Portuguesa, o que atendia a relação entre o Governo Português e a Igreja Católica Apostólica Romana. O Pe. Antônio Vieira, em seus Sermões (XI e XXVII) afirma que a África é o inferno donde DEUS se digna retirar os condenados para, pelo purgatório da escravidão nas Américas, finalmente alcançarem o paraíso. 

O mesmo Pe. Antônio Vieira, no Sermão XIV do Rosário à Irmandade dos Pretos de um Engenho, elaborado em 1633, ao comentar o texto de São Paulo I Cor 12,13 - o entende no sentido de que os africanos, sendo batizados antes do embarque da África à América, deviam agradecer a DEUS por terem escapado da terra natal, onde viviam como pagãos entregues ao poder do diabo. E diz: todos os de lá, como vós credes e confessais, vão para o inferno onde queimam e queimarão durante toda a eternidade (VIEIRA, Antônio, 1981). 

Em outro sermão ainda, Vieira diz que, para ele, o cativeiro do africano na América não é senão um meio cativeiro, pois atinge só o corpo. A alma não está mais cativa, ela se libertou do poder do diabo que governa a África e o escravo no Brasil deve tentar preservar essa liberdade da alma, para não cair de novo sob o domínio dos poderes que reinam na África (Idem). 

Em 1873, uma oração pela conversão dos povos da África Central para a Igreja Católica, escrita pela Secretaria da Sagrada Congregação das Indulgências, dizia assim: Rezemos pelos povos muito miseráveis da África Central que constituem a décima parte do gênero humano, para que DEUS onipotente finalmente tire de seus corações a maldição de Caim e lhes dê a benção que só podem conseguir em Jesus Cristo, nosso DEUS e Senhor: Senhor Jesus Cristo, único Salvador de todo o gênero humano, que já reinas de mar a mar e do rio até os confins da terra, abre com benevolência o teu sacratíssimo coração mesmo às almas mui miseráveis da África que até agora se encontram nas trevas e nas sombras da morte, para que pela intercessão da puríssima Virgem Maria, tua Mãe imaculada e de São José, tendo abandonado os ídolos, se prostrem diante de Ti e sejam agregados à tua Santa Igreja. 

O domingo foi dado como dia “livre” aos escravos para exercerem sua cultura de origem, abaixo vejamos a justificativa desta atitude por parte da monarquia. É um texto do Conde dos Arcos, séc. XIX: 

Batuques olhados pelo Governo são uma cousa, e olhados pelos particulares da Bahia são outra diferencialíssima. Estes olham para os batuques como para um ato ofensivo dos direitos dominicais, uns porque querem empregar seus escravos em serviço útil ao domingo também, e outros porque os querem ter naqueles dias ociosos a sua porta, para assim fazer parada de sua riqueza. O governo, porém, olha para os batuques como para um ato que obriga os negros, insensível e maquinalmente, de oito em oito dias, a renovar as ideias de aversão recíproca que lhes eram naturais desde que nasceram, e que, todavia se vão apagando pouco a pouco com a desgraça comum; ideias que pode considerar-se como o garante mais poderoso da segurança das grandes cidades do Brasil, pois que se uma vez as diferentes nações da África se esqueceram totalmente da raiva com que a natureza as desuniu, então os de Agomés, vierem a ser irmãos com os Nagôs, os Geges com os Haussas, os Tapas com os Sentys, e assim os demais; grandíssimo e inevitável perigo desde então assombrará e desolará o Brasil. E quem duvidará que a desgraça tem o poder de fraternizar os desgraçados? Ora, pois, proibir o único ato de desunião entre os negros vem a ser o mesmo que promover o governo indiretamente a união entre eles, do que não posso ver se não terríveis consequências. 

O rei do Daomé enviou, por volta de 1795, dois embaixadores à Bahia com a finalidade de propor aos portugueses um tratado de comércio que garantisse ao porto de Ajuda (Ouidah) a exclusividade de fornecimento de escravos. Essa oferta não foi levada em consideração “porque não convinha que nesta Capitania (Bahia) se reunisse um número por demais grande de escravos da mesma Nação do que poderiam resultar consequências perniciosas”. 

Esses pressentimentos não eram vãos, pois houve, na Bahia, inúmeras revoltas: as Haussas, em 1807 – 1813, seguida das revoltas dos Nagôs Malê, que se deram entre 1826 e 1835. Eram todos eles Muçulmanos. As consequências destas sublevações foram limitadas, pois outras nações de Negros não seguiram o movimento. Tratava-se, aliás, de uma guerra de religião, a “Guerra Santa”, pois se dirigia não somente contra os Senhores Brancos, mas, também contra os negros crioulos, convertidos ao catolicismo, e contra os negros “animistas”. 

Amaury Talbot assinala que em “1846, devido à nova política de livre-escambo e a nova lei sobre o açúcar, o mercado britânico estava inundado com o açúcar do Brasil e de Cuba, produzido pela labuta dos escravos, e que, em consequência o tráfico dos escravos recebeu grande estimulo”. 

Este estímulo econômico trouxe cativos Yorubá em grande numero para o Brasil e para Cuba, que, conforme vimos mantinham relações constantes com a Costa dos Escravos. Era época das guerras insistentes que Guezo, Rei do Daomé, movia contra seu vizinho o Rei dos Yorubá, outrora poderoso, mas agora enfraquecido pelas invasões dos fulani. 

Guezo, neste período final de escravidão, fez cativa toda a nação de Keto, que entre os NagôYorubá era onde havia o culto ao Orixá Oxóssi. Foi o perfil desta nação que marcou intensamente o perfil da religiosidade baiana, que recebeu boa parte de tal nação. Além disso, Brasil e Cuba eram os únicos países para onde ainda era possível enviar prisioneiros de guerra que se haviam tornado escravos. 

A escravidão fora abolida em toda a América do Sul, com exceção do Brasil, e nas Antilhas, com exceção de Cuba, em Porto Rico. Quase não havia comércio direto com Estados Unidos. Uma distribuição dos negros por “Nação”, baseada no contrato de compra e venda de escravos, entre 1838 e 1860, extraídos do arquivo municipal da cidade de Salvador (Bahia), indica as seguintes cifras: 3060 escravos de origem Sudanesa: Nagô (2049), Djedje(286), Mina(117), Calabar (39), Benim (27) e Cachéu (12). 460 escravos de origem Banto: Angola (260), Cabinda (65), Congo (48), Benguela (29), Gabão (5), Cassange (4) e Moçambique (42). (Os escravos das Nações que embarcavam no Porto da Costa do Ouro e dos Escravos eram denominados Sudaneses e os que embarcavam no Porto da Costa de Angola eram denominados Bantos. ). 

Estes são os números do ultimo período de tráfico negreiro, à Bahia. Desta forma fica claramente explicada a predominância da Cultura Nagô, a língua Yorubá e consequentemente o Culto de Orixá característico na região. 

Do Culto de Nação ao Candomblé 
por Alexandre Cumino 

O ritual cerimonial dos Nagô (e, em menor grau, o dos djedje) é aquele que, na Bahia, melhor conservou seu caráter africano e influenciou fortemente o das outras “Nações”. 

Voltando aos batuques aprovados pelo Conde dos Arcos, a constituição destas sociedades de divertimentos teve como resultado mais claro manter o culto às Divindades Africanas. Todos estes Negros haviam sido batizados, mas permaneciam ligados a suas antigas diferenças. Essas associações lhe permitiam manifestá-las às claras. Suas cantigas e suas danças, que aos olhos dos Senhores pareciam simples distrações de negros nostálgicos, eram, na realidade reuniões nas quais eles evocavam os Deuses da África. 

Quando o Senhor passava ao lado de um grupo no qual eram cantadas as forças e o poder vingador de Xangô, o trovão, ou de Oyá, divindade das tempestades e do rio Níger, ou Obatalá, divindade da criação, ele perguntava o significado daquelas cantigas, e imagina-se a resposta dos escravos: 

“Yoyo, adoramos a nossa maneira e em nossa língua São Gerônimo, Santa Barbara ou o Senhor do Bom Fim”. Cada Orixá havia sido sincretizado por um santo católico. Com o tempo houve uma evolução e o sincretismo afro-católico que, originariamente, era apenas máscara, para ocultar o Culto de Orixá, tornou-se mais sincero. 

As novas gerações “crioulas” já consideram que “santo” e “orixá” são um só, que apenas o nome muda, mas que, de acordo com o lugar ou momento, é bom dirigir-se a ele em latim ou em uma língua da África. No entanto mais recentemente surgiu um movimento junto aos Candomblés Baianos para retirar o sincretismo, desassociar e descristianizar o Culto de Matriz Africana. Um dos “slogans” do movimento era: 

“Santa Bárbara não é Iansã”. 

Candomblé é um nome dado na Bahia às cerimônias Africanas. Ele representa para seus adeptos as tradições dos seus antepassados vindos de um País distante, fora de alcance e quase fabuloso. Trata-se de tradições mantidas com tenacidade, e que lhes deram a força de continuar sendo eles mesmos, apesar do preconceito e desprezo de que eram objeto suas religiões, além da obrigação de adotar a religião de seus senhores. 

O Candomblé torna-os membros de uma coletividade familiar, espiritual, para a qual são atavicamente preparados. Essa forma de organização social proporcionava-lhes uma segurança e uma estabilidade que nem sempre encontraram em nossa civilização. Existem poucos países onde os descendentes dos negros libertos da escravidão tenham conservado, como na Bahia, o orgulho de origem Africana e não tenham procurado dar uma impressão de ascensão social, renegando abertamente suas tradições adotando aparentemente as da classe dominante. 

Existe também um sincretismo, associação e relação entre Orixás (Nagôs-Yorubá), Voduns (Dgedge) e Inquices (Angola-Quimbundo), podemos até dizer que sincretismo entre divindades de diferentes culturas já era alço comum em algumas culturas africanas, como a Bantu ou a Dgedge. 

Os Nagôs são mais fechados e reservados. Por isso talvez os outros é que se “aculturaram” com seus valores. Na falta de culto as divindades Vodum ou Inquice, logo os mesmos já identificavam os mesmos por meio de Orixás análogos, crendo ser o mesmo com nomes diferentes. 

Vejamos abaixo uma tabela de comparação e assimilação dos mesmos: 

Djeje (Divindade = Vodum) 
Angolano (Divindade = Inquice) 
Nagôs (Divindade = Orixá) 
Legbá Aluvaiá Exu Gu Nkosi-Mukumbe Ogum Sapata Kaviungo Omulu Hoho Vunji Ibeji Age Kabila Oxossi Sobo Nzaze-Loango Xangö Aziri Kisimbi Oxum Lisa Lemba Oxala Dan Angorö Oxumaré Manú (Deus) Zambi (Deus) Olorum (Deus) 
Bibliografia: Notas sobre o culto aos Orixás e Voduns (Pierre Verger / Edusp), Orixás (Pierre Verger / Corrupio), O Candomblé da Bahia (Roger Bastide / Companhia das Letras), Os Nagô e a Morte (Joana Elbein dos Santos / Editora Vozes) 

 Obs.: As cerimonias africanas são denominadas macumba no Rio de Janeiro, candomblé, na Bahia, xangô no Recife, tambor de mina em São Luiz do Maranhão. 

Consultar, sobre estas questões, os trabalhos de Manuel Querino, Nina Rodrigues, Artur Ramos, Édison Carneiro, Donald Pierson, Gonçalves Fernandes e Roger Bastide. 

Nota de Pierre Verger. 

Geografia dos Orixás autoria desconhecida Não costumo me servir de nada que tenha autoria desconhecida, no entanto considero este texto muito bom, e teria o maior prazer em reconhecer a autoria do mesmo (Alexandre Cumino): 

Se na África o culto dos orixás está circunscrito a determinadas regiões ou cidades, no Brasil a coisa foi totalmente diferente. Lá, existe uma localidade especificamente destinada ao culto de determinada divindade, contendo a mesma história, sua origem, seus mitos, e seus ritos. Assim, Ifé, na Nigéria é o centro da criação para o mundo nagô-iorubá, é a capital do mundo mítico e mágico negro, é o Iluaiye de que tanto falam os negros da diáspora. Em Ile-Ife está o culto a Oduduwa, fundador dos povos iorubás, assim como Obatala ou Osala, o Deus que criou o homem. Em Oyo está Sango, que foi seu quarto rei e é o deus do fogo e do trovão, sendo um dos seus antecessores, o seu pai Oranyan, que foi o primeiro rei de Oyo. 

Em Ire, Ogun, deus do ferro e da guerra, invadiu o dominou a cidade tornando-se rei com o nome de Ogun Onire. Em Abeokuta corre a tradição de lá ter nascido Yemoja, bem como a de que Oyo ou Iansã para os brasileiros, ter nascido em Ira. Er inlé, mais conhecido como Inlé e Ibualama, tem o seu culto em Ilobu, além de ter o rio com seu nome. 

De Ilesa recebemos grande herança. De lá veio o culto a Logun Edé, cujo sacerdote mais velho e mais importante do Brasil é o babalorisa. Eduardo Mangabeira, popularmente conhecido como Eduardo Ijesa, hoje com 99 anos de idade. De Ikija, perto de Ijebu surgiu Ososi, que veio a ser o primeiro rei de Ketu, cidade que depois foi dominada, destruída e anexada ao Dahomey, hoje República Popular de Benin. 

De seu culto nada mais resta a não ser na diáspora, especificamente na Bahia. Osun tem o seu culto principal em Osogbo, além das cidades de Oboto, Akpara, Ipetu, Ijimu, dentre outras. Osala andou muito. Saiu de Ife peregrinando por diversas regiões, tomando nomes diferentes, ao tempo em que se torna rei dos referidos locais. 

Em Ejigbo tomou o nome de Osagiyan, em Ifon, Orisa Olofun e assim por diante. Também chegou até a Bahia o culto a Iya Mapo, patrona da vagina, por ser através dela que todos os seres humanos vêm ao mundo, daí a sua sacralização. 

Iya Mapo é muito venerada e cultuada em Igbeti. Existe um itan Ifa ( história de Ifa), pertencente ao odu Osa Meji (10), que conta como foi colocada a vagina no devido lugar da mulher, até então colocada em vários lugares do corpo, menos no que é hoje. Para isso estiveram envolvidos não só o Odu osa meji, mas também Esu e Iyami Osoronga, num ebó feito com duas bananas e um pote, cabendo a Esu a sua localização atual, bem como a do pênis do homem do qual Esu é o dono. 

Quem viaja pela Nigéria, encontrará enormes pênis esculpidos em pedra pelas estradas, em reverência a Esu. Na Bahia, o Esu da porteira do Ase Ile Opo Aganju é assentado com grande pênis esculpido em madeira [...] [...] Nos rios se fazem oferendas e ritos para Osun, divindade do rio Osun, com cerimônias nas suas margens, em Osogbo. 

Yemoja, no rio Ogun, Yewa no rio Yewa, Erinle, no rio Erinle. No mar, Iya Olokun, que é sua dona, tem o seu rito como na Nigéria, onde existem esculpidas suas cabeças. Na Bahia se devota grande respeito a essa divindade. Não se entra no mar sem lhe saudar e pedir licença, dizendo: Iya Olokun to to hun, Iya Olokun gba mi o, Iya Olokun ago "Mãe Olokun extremamente respeitada, Mãe Olokun me valha, Mãe Olokun licença", após o que se entrar no mar... As ruas, os caminhos, as encruzilhadas pertencem a Esu. 

Nesses lugares se invoca a sua presença, fazem-se sacrifícios, arreiam-se oferendas e se lhe fazem pedidos [...] “Sou zelador-de-santo” Um dos mais respeitados pais-de-santo do Brasil, Agenor Miranda Rocha emite opiniões corajosas sobre o candomblé. por Gladys Pimentel A reabertura dos terreiros de candomblé no feriado religioso de Corpus Christi traz, todo ano, à Bahia um dos mais queridos e respeitados sacerdotes do povo de santo, o oluwô (dono dos segredos) Agenor Miranda Rocha, 93 anos. No último dia 13, ele se dividiu na tríplice jornada de visitar o Gantois, a Casa Branca e o Ilê Axé Opô Afonjá. Poeta, intelectual, escritor, cantor lírico e educador, ele é o responsável pelo jogo que indica os representantes na sucessão para as grandes casas de candomblé da Bahia. 

Foi seu jogo que nomeou mãe Stella, para o Opô Afonjá, e Tatá, para a Casa Branca. Pelo apartamento de pai Agenor, no Rio, passam, diariamente, dezenas de pessoas, incluindo artistas globais e políticos, que confiam a vida ao seu jogo de búzios. Natural de Angola, pai Agenor veio para a Bahia com 5 anos de idade. Ainda criança, recebeu, de Eugênia Ana dos Santos, mãe Aninha, a vocação para o candomblé. 

A vida do oluwô já foi registrada em um livro, de Diógenes Rebouças Filho (Pai Agenor, editora Corrupio, 1997), e, agora, será tema do documentário Um Vento Sagrado, com roteiro e direção de Walter Pinto Lima e Carlos Vasconcelos Dominguez (este, morto no ano passado). 

Nesta entrevista, concedida no último dia 16, antes de voltar para o Rio de Janeiro, pai Agenor fala sobre sua concepção de candomblé, critica o sacrifício de animais, o jogo cobrado e a grande exposição que a religião ganhou atualmente. 

P - Quando e como surgiu sua vocação para pai-de-santo? 

R - Não sou pai-de-santo, sou zelador-do-santo. O santo é que é meu pai. Eu acho esta nomenclatura (pai-de-santo) muito errada. Eu zelo. 

P - Qual é a diferença? 

R - Se eu sou pai-de-santo, o santo é propriedade. Para mim, os orixás são fragmentos da natureza. Cada orixá tem encantado um fator natural: Iansã, no vento; Iemanjá, no mar; Oxóssi, nas matas, caçando; Ogum, desbravando estradas. Então, como eu posso ser pai deles? Quero que me chame de zelador. Pai, não. O zelador trata dos orixás, faz, todas as semanas, uma obrigação, que se chama ossé. Fazer ossé aos orixás é limpá-los, cuidá-los. 

P - Como o senhor vê, então, a utilização da nomenclatura pai-de-santo pelo candomblé? 

R - Eu já encontrei isso quando fiz santo. Eu é que não me sinto bem em dizer que sou pai-do santo. Para eles (algumas pessoas do candomblé), é uma glória dizer isso. 

P - Voltando à sua vocação para zelador-de-santo, quando e como ela surgiu? 

R - Eu tinha 5 anos. Na verdade, não fui eu quem procurou o candomblé, o candomblé é que me procurou. Minha família era toda católica, apostólica, romana, nunca “assistiu” a um candomblé. Nasci em Ruanda, capital de Angola. Vim para a Bahia com 5 anos. A vocação surgiu desde que eu nasci. Um africano disse isso para minha mãe antes do meu nascimento. Ela não acreditou, mas ele acertou em tudo. Ela me esperava para outubro, ele disse que era para setembro. Eu nasci no dia 8 de setembro de 1907. Disse que eu ia trazer uma mancha vermelha na cabeça. Eu trouxe. Quando chegamos aqui, na Bahia, eu fiquei para morrer. Os médicos desenganaram-me. Minha mãe Aninha, a que fundou o Axé Opô Afonjá, fez o jogo e disse que eu não tinha nada, que era o orixá que iria ser feito. Fez-se o orixá, em 1912, e eu estou aqui. 

P - O senhor ocupa um dos mais altos postos no candomblé. Como atua um oluwô? 

R - A mando dos orixás. Sem alarde e sem vaidade. Na realidade, o magistério é que foi minha carreira. Trabalhei no magistério 47 anos, e saí com pena. Eu nunca vivi do santo. Eu vivo para o santo. Até meu jogo de búzios, nunca cobrei. Não cobro, porque eu duvido um pouco dessa caridade cobrada. Ela deixa de ser caridade quando é cobrada. Eu sou feliz, os orixás me deram essa missão, mas me deram também uma profissão. Então, não há necessidade de eu cobrar. 

P - Nesses seus 93 anos, houve algum fato, alguma experiência que o marcou? No candomblé, por exemplo? 

R - Diversos. Teve um episódio na minha casa, no Leme, no Rio, em 1947. Eu sonhei com Xangô me dizendo que estava segurando a casa até eu me mudar, pois a casa iria desabar. Eu mudei às 5 horas. Às 7 horas, a casa desabou. Então, eu tenho que ter amor aos orixás. Não posso vendê-los, me aproveitar. 

P - Na Bahia do Senhor do Bonfim, o sincretismo religioso está muito presente. Qual a sua opinião sobre o sincretismo, considerando que o senhor é um zelador-de-santo, filho de pais católicos? 

R - Não há crime nenhum no sincretismo, porque, se não fosse o sincretismo, não haveria candomblé hoje. Essa é que é a verdade. As mães-de-santo e os pais-de-santo não querem o sincretismo. Mas tem que haver. Se não fosse o sincretismo, como é que o candomblé iria sobreviver até hoje? Teria morrido. Agora, eles não gostam quando eu falo isso. Mas eu falo o que sinto. Não falo pelos outros, falo por mim. 

P - O senhor é devoto de Santo Antônio e de São Francisco de Assis e vai sempre à cidade de Assis, na Itália, venerar São Francisco. Como é que o senhor lida com isso dentro do candomblé? Existe preconceito? 

R - Se há preconceitos, é com eles. Eu sou eu. Nunca tive conflito. E, agora, tem mais uma coisa: eu sou do santo, católico e espírita. Assim como na família: nem todos são iguais, mas convivem bem. Não é isso? É uma questão de fé. 

P - Qual a diferença do candomblé do passado para o candomblé atual? 

R - Bom, eu costumo, numa frase, mostrar: eu sou do candomblé de morim (pano de algodão muito fino e branco). Hoje, é candomblé de lamê (plumas, lantejoulas). Parece uma escola de samba. 

P - O sacrifício de animais, um dos ritos mais comuns e simbólicos do candomblé, é contestado pelo senhor. Por quê? 

 R - Acho que é uma maldade. Os orixás, que são fragmentos da natureza, precisam de sangue? Matar os animais que representam a natureza? Matar, além de tudo, com uma faca, devagarinho, com cantiga, até chegar em uma palavra para tirar a cabeça do bicho. Não dá! Sou contra a matança. Na vida, tudo evolui com o tempo. O candomblé podia ter evoluído um pouquinho, ser mais moderado. O candomblé, hoje, é um luxo. 

Obs.:  

Nesta mesma época em que foi feita a entrevista para o “Jornal da Tarde 24/06/2001” realizou-se um documentário sobre a vida de Agenor Miranda, intitulado “Um Vento Sagrado”. O filme traz depoimentos de personalidades, como o cantor Gilberto Gil e o escritor Muniz Sodré. 

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