Divaldo Franco e a cara do movimento espírita brasileiro, por Marcelo Teixeira

 


Divaldo Franco e a cara do movimento espírita brasileiro, por Marcelo Teixeira


“Oi, amigo. Lamento, mas não estou lendo esse tipo de material.”

Estava começando a pensar de onde partiria para escrever este artigo quando recebi a mensagem acima transcrita, vinda de uma pessoa espírita conhecida minha. Havia enviado para ela e muitos outros amigos de ideal alguns textos criticando a homenagem que o médium e tribuno baiano Divaldo Pereira Franco recebeu do atual presidente da República, Jair Bolsonaro. Divaldo, no início de julho de 2022, foi agraciado com uma comenda em honra ao trabalho social por ele desenvolvido.

Eu e muitos outros companheiros de doutrina espírita (sim, somos muitos) jamais aceitaríamos algo semelhante vindo de um presidente que é pródigo em desrespeitar a vida com declarações escancaradamente machistas, homofóbicas, racistas e misóginas. Um presidente que tem, como ídolo, um torturador; vive fazendo ‘arminha’ com as mãos e, por tabela, incentiva a população a andar armada. Um presidente cuja postura violenta abriu a porteira para desmatamentos, garimpo ilegal, assassinato da população negra, truculência policial, feminicídios e perseguição aos povos originários. Um presidente, por fim, que, ao negar a ciência, atrasou o início da vacinação contra a Covid (o que poderia ter evitado milhares de mortes), declarou não ser coveiro quando questionado sobre o alto índice de óbitos e, suprema crueldade, imitou um paciente com falta de ar à época em que a cidade de Manaus, um dos epicentros da pandemia, sofria com a falta de oxigênio.

A doutrina espírita, organizada e divulgada por Allan Kardec em meados do Século XIX, na França, explica os ensinamentos de Jesus à luz da imortalidade da alma. Isso abre um leque enorme de conhecimento e de responsabilidades para quem estuda e divulga o Espiritismo. Afinal, por meio dele, sabemos que somos Espíritos imortais presos temporariamente a um corpo material e que reencarnaremos na Terra quantas vezes for necessário. Motivos: desenvolvermos potencialidades, acertarmos as contas com eventuais desafetos de vidas passadas, superarmos imperfeições e, por conseguinte, ajudarmos no progresso dos nossos irmãos em humanidade e, também, no do planeta. Isso significa lutarmos para sermos pessoas melhores, bem como sermos participativos no que tange à construção de uma sociedade onde haja trabalho, saúde, educação, moradia e salários dignos para todos, independentemente de sexo, etnia, orientação sexual, classe social ou credo religioso. Estou falando de justiça social ampla, geral e irrestrita. Sem ela, estaremos, reencarnação após reencarnação, às voltas com as mazelas de sempre, principalmente se insistirmos em repetir padrões comportamentais que já deveriam estar superados. Daí o espanto de muitos espíritas ao verem um dos mais badalados representantes do Espiritismo no país aceitando ser homenageado por um governante cuja conduta está em total desacordo com o que Jesus e Kardec preconizam.

Divaldo, conservador e moralista

Divaldo Pereira Franco está na casa dos 90 anos. Vem de uma época em que a doutrina espírita conquistou grande número de adeptos graças a médiuns como ele, Yvonne Pereira, José Raul Teixeira e, principalmente, Chico Xavier. Adeptos, em sua grande maioria, vindos da classe média, e por motivos como perda de um ente querido, problemas pessoais, desavenças familiares e perturbações de ordem mediúnica. Gente que encontrou no Espiritismo alívio para as dores e explicações lógicas e consoladoras para as questões que os afligiam. Creio que está na hora de esta gente bronzeada se conscientizar que é preciso dar um passo além e debater sobre as questões sociais e políticas que fazem do nosso país um dos mais injustos do mundo.

Tais convertidos, vamos assim dizer, eram, até então, em sua maioria, católicos, assim como haviam sido católicas as pessoas que, à época, eram porta-vozes da doutrina trazida por Allan Kardec. Como nação catequizada por jesuítas portugueses, trazemos na nossa conduta, atavicamente, sem percebermos, um catolicismo popular e conservador. Isso acabou influenciando na forma tupiniquim de praticar a doutrina espírita. Resultado: o que temos até hoje é um movimento espírita conservador e moralista, pouco afeito a debater ideias progressistas e refratário a temas tidos como polêmicos. Entre eles, política, homossexualidade, racismo e aborto sob a ótica de acolher e proteger a mulher que foi vítima de estupro ou está em situação de vulnerabilidade social. Um movimento espírita que prefere se limitar à reforma que cada indivíduo deve realizar em seu mundo íntimo para viver melhor consigo e com parentes, amigos e colegas de trabalho, mas se esquece de ampliar a questão para as profundas reformas sociais pelas quais o Brasil e o mundo precisam passar para que todos tenham “vida em abundância”, conforme diz o Evangelho de João, cap. 10, versículo 10.

Divaldo acaba sendo – até mesmo sem perceber – a personificação desse Espiritismo que, ao não se aprofundar em assuntos de ordem social e política, perpetua o machismo, o racismo estrutural, a homofobia, as injustiças sociais, o risível medo de comunismo (embora o mesmo tenha vindo abaixo em 1989, com a queda do Muro de Berlim) e o receio que muita gente possui de viver num mundo mais igualitário. Pois é; falamos tanto sobre o mundo de regeneração; mas, no fundo, morremos de medo dele. Santo paradoxo!

O movimento espírita federativo – seja em âmbito municipal, estadual ou federal – prefere, pelo visto, se manter isento ao opinar sobre as já citadas questões sociais. Como exemplo, cito a decepção que um amigo sofreu ao navegar pelos sites e redes sociais das citadas federativas e não encontrar uma palavra de solidariedade às famílias dos então 500 mil mortos pelo coronavírus. Idem quando o atual governo afrontou solenemente a ciência com posturas abertamente negacionistas. A doutrina espírita possui um tríplice aspecto: ciência, filosofia e religião. O movimento espírita deveria, por essa razão, se pronunciar em defesa da ciência. Nada! Ibidem quando várias comunidades religiosas se manifestaram recentemente para defender a lisura do próximo pleito eleitoral. Silêncio total do órgão federativo espírita de nível nacional. O mesmo se dá com relação aos ataques que os templos de religião de matriz africana vêm sofrendo de evangélicos fundamentalistas e também aos assassinatos de jovens negros e pobres, de membros da comunidade LGBTQIA+, de ativistas ambientais e de indígenas. Como diz a mensagem que transcrevo no início, muitos espíritas preferem ignorar determinados assuntos, talvez para não se comprometerem ou por receio de macularem a pureza doutrinária, como se o Espiritismo existisse somente para tratar de assuntos das nuvens para cima. Ou então porque são pobres em cultura geral e utilizam o Espiritismo para esconder as próprias limitações. Ou simplesmente por julgarem que supostas lideranças espíritas são intocáveis e imaculadas. Afinal, devido ao atavismo católico, muitos espíritas deixaram de ser devotos de santos para sê-lo de médiuns, palestrantes ou Espíritos desencarnados. Bobagem! Todos eles são seres em evolução e em aprendizado, assim como nós.

Por um movimento espírita plural

Divaldo Pereira Franco é, portanto, fruto de uma construção social que, ao se esquivar de falar sobre política e outros temas, contribui para que a classe média que compõe o movimento espírita fique na média do que é a classe média brasileira, ou seja, inculta, reacionária, ranzinza, hipócrita, moralista, temerosa do comunismo e avessa ao progresso social, já que o mesmo implica em ascensão das classes que adoramos manter subalternas para limpar nosso chão, recolher nosso lixo, fazer nossa comida e lavar nosso banheiro.

A literatura espírita é vasta e seus profitentes, os que mais leem. No entanto, ninguém é culto só porque lê livros espíritas. Ganharíamos muito se estudássemos assuntos como sociologia, teoria política, semiologia e antropologia à luz da doutrina espírita. Se o fizéssemos, decerto um candidato bem mais capaz estaria, hoje, presidindo a nação. A meu ver, de nada adianta ficarmos maravilhados ante as minudências além-túmulo que os livros espíritas evidenciam se, na vida civil, repetimos, com o nosso voto e a nossa mentalidade, comportamentos sociais escravagistas, opressores e injustos que, há décadas, nos infelicitam. Para mim, o Espiritismo existe para ajudarmos a transformar a Terra num lugar bacana para todos, e não para nos tornarmos catedráticos em vida espiritual, mediunidade e afins enquanto o couro come do lado de fora do centro espírita e nós fingimos que nada temos a ver com fome, violência, miséria, preconceito ou aquecimento global porque a verdadeira vida é a espiritual.

E mesmo quando algum figurão espírita se pronuncia a respeito de algum destes temas, geralmente o faz de forma evasiva. Ou então, evoca a questão cármica para dizer que todos os problemas que estamos enfrentando são resultado de maldades que praticamos em vidas passadas. Raramente alguém tem a coragem de dizer que a questão é mais política que cármica. Com isso, o debate se restringe a uma fraternidade rasa, que não passa da esfera íntima ou do convívio doméstico. Daí para apoiarem uma criatura despreparada ou mal-intencionada que seja candidata a cargo público é um pulo.

Felizmente – e principalmente de 2016 para cá –, vários espíritas sedentos de justiça social e insatisfeitos com a dinâmica dos centros espíritas convencionais passaram e se articular pelas redes sociais. Com isso, surgiram vários coletivos, nos quais o debate é politizado e vai fundo em assuntos tidos como tabus pela banda conservadora. Isso mostra que, com o tempo, retóricas como as de Divaldo e congêneres ficarão cada vez mais datadas, abrindo espaço para um movimento espírita plural, dialogando abertamente sobre as questões que visem à diminuição ou até à solução das injustiças sociais seculares que tanto têm massacrado o Brasil.

Texto de Marcelo Teixeira
Espiritismo com Kardec – ECK (site)

E nós, Umbandistas?

Quanto à nós, Umbandistas, qual seria a nossa responsabilidade diante dos assuntos levantados pelo escritor Marcelo?

Sendo a Umbanda uma religião que teoricamente acolhe a todos, sem distinção, será que nos sentiríamos confortáveis, caso alguém, conhecido como forte influenciador no meio Umbandista, tivesse sido exposto à mesma "homenagem"?

Nossa comunidade aceitaria calada tal afronta?

Particularmente acredito que o barulho seria maior, mas há em nosso meio, assim como em todos os outros, os que sintonizam que o mal feitor que, pela graça de Deus hoje não mais preside o Brasil, portanto, há o que pensar. Sim, porque Umbanda não combina com racismo, homofobia e etc. e tal. Umbandista tem de ser o primeiro a levantar a voz contra o preconceito, a desigualdade, a opressão e nem é preciso explicar porque é nosso dever assumir tal postura.

O escritor Marcelo exibe com clareza, a postura de alguns espiritas que preferem não se expor, que escolhem os contos de fadas, que se escoram nos espíritos de 
altíssimo nível evolutivo, como se fosse realmente possível, para nós, que ainda estamos no começo do nosso caminho rumo à evolução, alcançá-los, para se manterem como diz o ditado: "em cima do muro".

Na verdade ficar "em cima do muro" é perigoso, nos torna vulneráveis. Não pensar no coletivo vai na contra mão da crença religiosa, seja ela qual for. Se permanecemos num grupo religioso que apoia mau feitores, há algo errado não com o grupo, mas com a gente, seria então hora de rever valores, posturas e nossa real essência.

Os tempos são de união para a construção do bem na Terra. O caminho é longo, cheio de espinhos e desafios, mas é o caminho da paz, ou seja, é o caminho que Deus nos assinala, o percorre quem estiver disposto a lutar contra uma infinidade de maldades hoje praticadas por seres humanos que se perderam da Luz, que perderam sua humanidade e alimentam monstros dentro de si mesmos, porém, só Deus os pode julgar e punir, a nossa parte, aquela que nos cabe, é não concordar, não fortalecer, não nos intimidar com suas ameaças confiando sempre no poder do Criador e da espiritualidade engajada no movimento de aperfeiçoamento humano que certamente conduzirá essas criaturas a locais adequados.

Nosso compromisso, como religiosos, tem de ser com o bem, com a verdade, com a justiça e para isso nosso dever é sempre esclarecer, sempre buscar o melhor caminho para todos não compactuando com os que vão na contra mão, com os que tem por meta apenas poder e dinheiro que passam por cima dos outros como fossem tratores não se importando com os sentimentos alheios, nem tampouco com o planeta que habitamos e que haverá de, no futuro, abrigar nossos descendentes. É preciso pensar em tudo isso e realmente nos posicionar diante de Deus como seus colaboradores, não como seus opositores que é o caso de quem disfarça e faz de conta que não é com eles essas questões sensíveis e difíceis que hoje enfrentamos como sociedade.

Enfim...abandonar a hipocrisia, viver de verdade, consciência e coração tranquilos no cumprimento de nossos deveres para que possamos buscar nossos direitos de cabeça erguida, sem débitos para com quem quer que seja.

Muita Luz e paz,

Anna Pon

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