HISTÓRIA DO EXU MARABÔ DAS MATAS

Casa do Vô Benedito



HISTÓRIA DO EXU MARABÔ DAS MATAS

(um dos muitos da linha)



Em uma de minhas encarnações terrenas fui um alquimista de certa importância para uma monarquia. 

Com o pouco desenvolvimento da época, aprendi a trabalhar com as plantas. Ajudei meu  superior com meu trabalho que o socorria quando seus entes queridos adoeciam e eu conseguia sucesso na recuperação de sua saúde, mas meu principal trabalho era de prejudicar alguns vilarejos para arrecadação de impostos. Em certo momento começaram as revoltas populares devido aos altos impostos e a miséria dos vilarejos.

Fui designado então a prejudicar alguns vilarejos, aqueles que não eram queimados acabavam sendo envenenados fazendo sucumbir a população humana e animal da região.

Em uma de minhas tarefas e ataque a um pequeno vilarejo, vi uma jovem de beleza estonteante que mexeu comigo e senti que não poderia deixa-la ali. Então a resgatei e a levei a uma cabana muito simples dentro da floresta, ela parecia conhecer aquele lugar. Contei a ela o que estava acontecendo, ela mudou sua expressão consideravelmente. Suas lágrimas eram uma mistura de ódio e tristeza.

Em poucos dias aquele vilarejo onde ela vivia desapareceu e aquela linda mulher já não chorava mais, guardara seus sentimentos para si.

Com o tempo passei a visitá-la com certa frequência, mas, escondido dos olhos de alguns guardas que apenas faziam o seu trabalho e que era o de seguir e entregar aos seus superiores quem eles suspeitavam de traição.

Passei a ajudar a linda moça da forma que podia, e fui me apaixonando cada vez mais.

Essa paixão era algo avassalador, chegávamos a perder a noção de tempo em nossos encontros. Passei a descobrir que meu conhecimento sobre plantas era pequeno quando ela começou a me ensinar sobre algumas propriedades.

Nosso envolvimento era algo mágico se assim posso dizer. Da paixão passei a ama-la como nunca amei nada e nem ninguém em minha pequena existência, pude perceber a diferença entre amor e paixão quando começou a doer. Sentia dores que não havia sentido ainda! Dores que não se explicam em palavras quando se ama, eram dores da alma.

Esse amor era tão grande que não percebia a magia que me envolvia.

Sim, magia que me levou a fazer coisas terríveis, além das que eu já havia feito com consciência. Passado algum tempo ela me convenceu a vingar a sua perda. Achei que eu estava me vingando também.

Passei a envenenar a água que a monarquia bebia. Alguns senhores importantes da época ficavam doentes sem saber a causa ou a cura para seus problemas. Essa vingança se tornou tão grande que começou a atingir pessoas e crianças inocentes. Para mim era algo tão natural ver aquilo acontecer que já não me importava mais com as consequências dos meus atos. Deixei de cuidar até dos guardas que observavam quem entrava e saía do forte.

Fui descoberto em uma de minhas tramas.

Eles me aprisionaram em um calabouço úmido, fétido e sem a luz do sol.

Além de não haver qualquer conforto, eu dividia a pequena sela com alguns ratos e gritos vindos do fim do corredor. Me serviam comida mal cheirosa e água suja quando os guardas estavam de bom humor.

Fiquei naquele lugar por algumas semanas até decidirem o que fazer comigo.

De início a intenção não era de me eliminar, me tornei como se fosse um brinquedo nas mãos dos guardas. Fui torturado e escalpelado para que eu falasse a mando de quem eu havia feito todas aquelas atrocidades. Não havia um nome, pois nunca considerei que houvesse um mandante, eu acreditava que havia feito por mim mesmo. Enquanto eu não disse um nome as torturas foram incessantes. Eu já não tinha mais forças para falar, andar e se quer me mexer. As poucas vezes que consegui abrir os olhos vi meu corpo coberto de sangue.

Para tentar amenizar a situação em que eu me encontrava, meus pensamentos eram voltados ao maior amor que já tive. Lembrava com detalhes do rosto daquela a quem eu havia prometido meu coração. Quando parei de sentir dor física, desencarnei.

Meu corpo foi jogado em uma vala junto a outros que como eu foram torturados até a morte. Mas soube disso muito tempo depois.

Logo após meu desencarne, me sentia como se estivesse naquele calabouço ainda. Com a diferença de que eu não estava mais deitado sobre uma tabua ou mesa de tortura. Eu estava em um lugar escuro, minhas dores físicas eram maiores, quase que insuportáveis, digo quase, pois eu intercalava desmaios e dores. Meu corpo continuava coberto de sangue, e eu me arrastava por aquele chão frio, sujo e sem vida. 

Quando meus olhos se acostumaram à escuridão, pude perceber que não estava sozinho naquele lugar. Havia pessoas que nunca vira antes e elas se aproximavam de mim com um objetivo, o de sugar o que me restava de energia e força vital. Aí me lembrei do que eu tinha feito, vivido, sofrido e de como havia desencarnado.

Eu não tinha forças para me mover, sequer brigar ou lutar pelo que me restava de fluido. Perdi noção de tempo e espaço naquele lugar. Foi tempo suficiente para eu começar a alimentar dois sentimentos, o da raiva e do amor.

Sentia raiva por estar ali, raiva pelas dores, raiva por aqueles seres que me sugavam, raiva por não estar ao lado daquela que tanto amei. Alimentei uma raiva oriunda da situação em que me encontrava e pelo não desligamento da minha vida terrena. Atrás daquela roupagem suja, ensanguentada, quase sem forças para me mover, alimentei um amor que de início não sabia de onde surgia, mas que depois pude perceber de onde era. Ele era a coisa mais preciosa que eu tinha naquele lugar. Um amor que lutava em rebater aquele ódio.

Demorou muito tempo para que eu conseguisse me movimentar.

Mesmo desencarnado, sentia fome, sede, frio, medo. Eu estava fraco, com feridas abertas e aí sim pedi por socorro. As lembranças da minha última vida ainda estavam bem vivas dentro de mim mas eu já estava cansado. Comecei a me desligar do mundo material e minhas feridas começaram a fechar. Eu já sentia meu corpo novamente e me movimentava com mais facilidade.

Foi quando em certo momento eu vi um vulto negro, mais negro que a escuridão daquele lugar. Ele se movia rápido e meus olhos ainda não estavam preparados para conseguir ver com clareza seus detalhes. Como não há qualquer tipo de luz onde eu estava, qualquer outra luz que exista ou se aproxime é capaz de cegar. Aos poucos fui me acostumando com aquela presença e me senti seguro e confortável com ele ali. 

Ao toque ele era grande, um felino de pelagem negra e olhos verdes. Apenas eu podia ouvi-lo e toca-lo.

Ele foi mandado para meu resgate, o resgate de uma alma que já não sentia que tinha salvação, mas, que guardara algo especial em seu interior. E esse foi o primeiro recado que me passou. Ele me ajudou a levantar do chão e me levou ao encontro de outras almas que inclusive eu havia contribuído para que estivessem ali. 

O meu processo de perdoar e pedir perdão, reconhecer e me libertar do sentimento de raiva e de culpa por ter causado o mesmo àqueles espíritos, foi doloroso e a principal lição foi a de levar esperança para quem já estava sem ela. Esse foi o início de um longo processo, de um profundo aprendizado que tive em meio a escuridão.

Quando completei essa missão e estava preparado, fui retirado daquele lugar e levado por esse felino a um segundo local de resgate. Segui a viagem vendado, pois meus olhos não suportavam a claridade, quando chegamos pude sentir em meus pés o que não sentia a muito tempo, um gramado úmido pelo orvalho da manhã. O cheiro da natureza era algo que incomodou minhas narinas quando cheguei, mas logo me acostumei, pude ouvir o som do vento batendo na copa das arvores. Não pude me conter e caí em prantos na grama. 

Um sentimento misturado, não conseguia definir ao certo o que sentia, mas algo dentro de mim parecia que queria sair como se fosse um grito de alegria, agradecimento, amor. Aquele felino continuava ao meu lado, e eu, deitado, chorei por horas e ele me acalentando. Meus olhos continuavam vendados. Me levantei e caminhamos por mais algum tempo, sentia que havia colinas, uma leve brisa batia em meu rosto como se me dissesse: “seja bem-vindo a nova casa”. 

Pude apalpar a pequena natureza que minhas mãos alcançavam e mesmo sem ver tudo era belo e perfeito. Por estar debilitado, essa caminhada parecia ser longa, mas a mais bela de todas as que tinha visto.

Fui recepcionado com grande alegria por algumas pessoas que me colocaram em repouso até que me recuperasse e pudesse tirar a venda. Eles me limparam, me deram roupas de vestimenta única e me explicaram que lugar era aquele.

Era uma colônia de estudo e desenvolvimento de Exu. Muito mais do que aprender sobre a linha, eles me colocaram em processo de cura e limpeza daquele novo corpo etéreo que eu havia assumido. 

Passei muito tempo em meio aos livros, estudos, conversas com os anciões. Tive contato com outras linhas de Exu, caboclos, pretos velhos. O aprendizado é longo para que possamos ter respeito, cuidado e conhecimento sobre outras linhas de trabalho disponíveis na Umbanda.

Passei a conhecer a linha dos Marabôs e me identifiquei com o modo de trabalho. Me foi permitido trabalhar na linha de Oxóssi pela minha conexão com a vibração do conhecimento e expansão, atributos dessa divindade.

Como Exu trabalhei com alguns resgates, cuidado e cura dessas almas que passam pelo umbral. E só muito tempo depois me permitiram trabalhar com médiuns na vida terrena.

A minha missão é a missão de qualquer outro Exu que trabalha honrando e respeitando todo o seu aprendizado adquirido e que trabalha para o bem, o amor e a caridade. A cura para os males da alma, do coração e do corpo físico.

Esse é um breve relato de como iniciei essa caminhada. É um presente ao Dirigente da Casa do Vô Benedito, aos pais pequenos, a médium que escolhi para trabalhar, e a todos os filhos desta casa de caridade.

Sou Exu Marabô das Matas e estou aqui para ajudar a todos que me pedirem socorro e auxilio.

Psicografia de Juliana Aline
Médium de Seu Marabô na Casa do Vô Benedito
Revisão de Anna Pon ( mãe pequena na Casa do Vô Benedito )

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