Rituais na Umbanda Por Alexandre Cumino



Rituais na Umbanda 
Por Alexandre Cumino 


Se procurarmos no dicionário (Aurélio) encontraremos as seguintes definições para Ritual: 

Referente a Rito; Culto; Liturgia; Livro que contém os ritos de uma religião; Conjunto de práticas consagradas pelo uso e/ou normas , e que se deve observar de forma invariável em ocasiões determinadas; cerimonial. 

Quando alguém repete diariamente e metodicamente determinada tarefa, com os mesmos movimentos e gestos, dizemos que fulano age como num ritual, pois dá importância a cada detalhe no cumprimento de sua tarefa. Da mesma forma afirmamos que a pontualidade denota que cumpre “religiosamente” seu compromisso. Que seja o tocar do despertador, arrumar a mesa do “café” ou organizar seu ambiente de trabalho. No entanto a origem da palavra Ritual está justamente no campo religioso em que prescreve minuciosamente como se deve cumprir as formalidades de certa liturgia, que seja o Ritual Católico da Missa, Ritual Candomblecista do Bori, Ritual Judaico da Páscoa, Ritual Budista de Meditação, Ritual de Batismo, Casamento, Encomenda Fúnebre... cada Ritual diz respeito de como realizar tal ato. Até mesmo o Espiritismo que afirma não ter ritual, formal, encontra nas “sessões espíritas” uma sequência adotada como num ritual, que seja o preparo físico do ambiente, o preparo da mesa, musica ambiente, água para fluidificar, oração, leitura do evangelho, manifestação mediúnica e passes... marcam uma sequência ritual pela repetição de atos e gestos e a importância que se dá a cada uma das partes que formam este todo. 

Quando falamos em Ritual Religioso estamos nos referindo, na maioria das vezes, ao contexto e conjunto de gestos criados e organizados de forma pensada para a conexão com o sagrado. 

Os Rituais Religiosos são realizados há milênios repetidos e passados de geração em geração. Um dos objetivos do Ritual é ajudar para que nenhum detalhe do culto seja esquecido e entre as prioridades de um culto está: criar um ambiente para que as pessoas tenham uma experiência religiosa, se sintam tocadas pelo mistério, e dê um significado e sentido para esta experiência. 

Na Umbanda, desde um banho de ervas, feito em casa, a vela ao anjo da guarda, a forma como se adentra o terreiro (templo) já faz parte de todo um ritual. 

Umbanda é Religião e faz questão do Ritual e suas formalidades para “alcançar” o sagrado. O Ritual ajuda as pessoas a entrarem em uma outra realidade, diferente de seu dia a dia, o ritual marca emocionalmente, psicologicamente e verbalmente a separação, no tempo, entre sagrado e profano. 

O ritual convida todos a esquecerem, durante alguns momentos, os seus problemas e preocupações, para alcançarem um estado de harmonia, sintonia e vibração tal que lhes ajude desde uma cura até a encontrar respostas dentro de si mesmos para as dificuldades da vida. Embora muitas vezes nos digam que o que vale são as intenções, não basta tê-las e não saber como colocar em pratica, nesta questão o ritual conduz a realização dos ideais religiosos. Só por estas qualidades já nos daríamos por satisfeitos em compreender a importância de um Ritual, no entanto, para a Umbanda, assim como para outras religiões, o Ritual tem um aspecto “mágico-religioso”, de invocação e evocação de poderes e mistérios, da manipulação de elementos e transformação nas energias internas e externas, e sua repetição visa potencializar tudo o que é metodicamente solicitado à divindade estabelecendo um vinculo cada vez mais forte com a egrégora que sustenta esta religião no astral e que guarda sintonia, compartilhando, o “axé” (poder de realização) como todos os outros milhares a repetir o mesmo ritual e pedidos. 

Logo, em religião e mais especificamente na Umbanda, Ritual não é apenas uma formalidade e sim um conjunto de atos e gestos muito bem pensados que visam aproveitar ao máximo, num curto espaço de tempo, o contato direto com a espiritualidade. O que causa, algumas vezes, certa impressão errada com relação ao ritual, é exatamente o fato de que em algumas situações sentimos valorização excessiva da formalidade em detrimento da experiência com o sagrado. 

Alguns rituais se tornam cansativos e até mesmo vazios, quando a religião ou o culto vai perdendo a capacidade de conduzir ao centro do mistério, no qual reside a percepção do transcendente. Nos sentimos enganados ao perceber que o intermediário (sacerdote ou médium) se coloca acima ou no centro do “mistério”, fazendo do ritual um momento de autopromoção para alimentar seu ego; esquecendo-se de que o “Poder” de um ritual não está no “ministro religioso” ou “médium” e sim na Divindade que sustenta e ampara a tudo e a todos. 

Muitos, sem ritual nenhum, sem formalidades e sem hora marcada se entregam a praticas pessoais de meditação e oração, nas quais se realizam espiritualmente dando-se por satisfeitos, o que é positivo; no entanto pelas desilusões com esta ou aquela religião adotam uma forma de pensar que faz crer que todo ritual seja vazio e que o que sempre terá mais valia a pratica solitária. No entanto esta pratica solitária nem sempre é solidária e entre os objetivos de uma religião está o proceder e agir em comunidade, propiciando o encontro com o outro e a pratica da caridade espiritual, a qual deve incentivar também a caridade material. 

Logo uma experiência solitária pode ser muito boa e satisfazer seu praticante, mas é apenas em comunidade que criamos egrégoras de trabalho, força tarefa e nos unimos reunindo os recursos espirituais e materiais para ajudar ao próximo dentro deste contexto. 

Rituais com participação de muitas pessoas mechem com muitas energias e vidas, implicam mais responsabilidade e também com resultados que são potencializados de acordo com as intenções. 

Fazer parte de uma religião é comungar de seus ideais e filosofia, na busca por um mundo melhor, no entanto esperamos que tanto os rituais quanto as religiões nos incentivem na pratica do “conhece-te a ti mesmo”. 

Podemos dizer que na Umbanda com o exercício mediúnico e as consultas diretas aos espíritos guias temos uma ferramenta importantíssima para o auto conhecimento e crescimento pessoais. 

Cada casa (templo) tem o seu ritual, onde o mesmo se amolda, segundo a concepção do grupo e direcionamento dado pelo sacerdote e mentor que dirigem os trabalhos. Dificilmente encontraremos Centros/tendas/terreiros com o mesmo ritual, até porque cada um tem uma energia e concepção da realidade espiritual. 

Um templo dirigido por um filho de Ogum terá um perfil diferente de um outro dirigido por uma Filha de Oxum e, mesmo que a ritualística seja em muito semelhante a forma de relacionar-se será outra, pois para além da diferença de comportamento denotada pelo orixá de cabeça de cada um ainda deve-se levar em conta a formação religiosa, cultural e familiar. 

Nossos valores de berço amoldados pelo meio em que nos desenvolvemos, o que faz de cada ser um universo à parte convivendo todos em diversas realidades sociais e espirituais. Ainda que muitos não aceitem esta diversidade na forma é justamente a pluralidade de perfil que vai dar espaço para que muitos e diferentes grupos de afinidades possam se encontrar dentro de uma mesma e única Umbanda. 

Quanto ao Ritual de Umbanda podemos dizer ainda que é simples e poderoso, simples porque realiza o essencial sem se perder nas formalidades, e poderoso pois o contato com a Divindade, com o sagrado, e seus mistérios é direto. 

Vamos pensar nestas questões? Cada elemento de nosso ritual tem uma razão e função de ser, portanto pode e deve ser explicado e fundamentado.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Orixá de Frente – Orixá Adjunto – Orixá Ancestral – A natureza humana -

Firmeza e Assentamento (Umbanda)

Características dos filhos dos orixás, personalidade dos filhos de Oxalá, Yemanjá, Oxum, Ogum, Oxossi, Yansã, Xangô