Psicologia e Umbanda




Psicologia e Umbanda 

por José Antonio de Souza, Psicólogo e Dirigente Umbandista escrito para a Página do Leitor do Jornal de Umbanda Sagrada, numero 33, Janeiro de 2003 


Como psicólogo não posso deixar de perceber como a personalidade do médium vai sendo moldada com o desenvolvimento das incorporações, como sutilmente vai modificando o interno do médium com o decorrer do tempo. 

Muitos já me perguntaram por que na Umbanda não tem um trabalho de preparo íntimo para os médiuns, porque os dirigentes simplesmente desenvolvem os médiuns e não preparam seus íntimos. Penso que os dirigentes deveriam trabalhar o interior dos médiuns. 

Com raras exceções, na maioria dos terreiros não há uma preocupação em desenvolver um trabalho específico para a melhora do íntimo dos médiuns. Mas, ao refletir sobre o assunto, percebi que este trabalho é realizado de forma silenciosa pelos guias espirituais. A reforma íntima do médium acontece na incorporação e nos contatos com os guias. 

A possibilidade de trabalhar várias linhas diferentes permite ao médium a possibilidade de incorporar à personalidade o princípio do arquétipo que rege a linha. Assim, ao incorporar um preto-velho ou preta-velha, o médium vai desenvolvendo em si a paciência, a bondade, o carinho, a empatia, o amor, a compreensão ao outro. 

Ao incorporar um caboclo ou cabocla, o médium aprende a ordem, a disciplina, o ritual, a eficiência do trabalho, a priorizar o que é importante, a trabalhar com ervas, com os vegetais, com as pedras, a quebrar demandas, sempre sem falar muito, somente o necessário, sem querer aparecer, trazendo uma força grande em si, aprende a conhecer o seu próprio poder, a força que possui. 

Os baianos trazem a descontração, o aprendizado de como trabalhar as adversidades, a alegria, a flexibilidade, a magia, a brincadeira sadia, assim médiuns que são introspectivos, quando incorporado seu baiano ou sua baiana, soltam-se liberando sua alegria interna, a descontração. 

Outros já são descontraídos por natureza, e desenvolvem outras qualidades junto com seu baiano, como a flexibilidade diante das situações, como amparar o irmão com alegria, trazer a alegria para o próximo, transmutando a tristeza do outro transmitindo alegria e esperança. E muitas outras coisas aprendemos com os baianos. Descubra o que o seu baiano está aprimorando em você. 

Os ciganos também aprimoram seus médiuns, trazendo a suavidade, a beleza, o encantamento, o envolvimento, a intuição, a paixão pela vida, pelo belo, pela música e a cura. 

Os marinheiros permitem aos médiuns desenvolverem o equilíbrio emocional, entrar em contato com as emoções mais íntimas desbloqueando e liberando os excessos, os vícios. Desenvolvendo no médium a capacidade de sentir as dores dos outros e com isso aprimorando as relações com o seu irmão. 

Os boiadeiros trazem para o médium a força necessária para caminhar no mundo, para lidar com as adversidades da vida, fortalecendo-o diante do mundo, mostrando que a luta sincera, o bom combate leva à luz. 

A linha do grande oriente, onde incorporam guias orientais, hindus, muçulmanos, chineses entre outros, estimulam no médium o caminho da evolução espiritual através dos estudos, da meditação, do conhecimento das leis divinas, do amor, da verdade, da ciência, da arte, do belo. Estimulando o médium no caminho da ascensão espiritual, fazendo-o eliminar da sua vida tudo que é pernicioso à sua ascensão. 

Exu e Pomba-gira trazem à tona a sombra do médium, aquilo que necessita ser trabalhado e está escondido no seu ser. O trabalho de autoconhecimento pode e deve ser desenvolvido dentro do terreiro, permitindo a todos que frequentam ferramentas que possibilitariam um aprimoramento de si mesmo. 

Converse com seu dirigente e veja a possibilidade de criar grupos de autoconhecimento.

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