Uma casa de Umbanda enfrentando demanda



Giras de Umbanda não começam no dia e horário marcados, começam antes, um ou mais dias antes, depende do trabalho a ser realizado.

A espiritualidade prepara os médiuns, a cada um dá uma função e, por intuição, todos sabem, ou sentem, uns mais, outros menos, qual será sua tarefa. Acontece também, frequentemente, de os médiuns sentirem, por exemplo, angustia, tristeza, desânimo, tudo isso em função de forças contrárias à prática do bem, da caridade.

Alguns podem até sentir indisposição física, falta de vontade de participar da gira, contratempos surgem e alguns sucumbem a essas investidas.

É diferente, por exemplo, quando o médium está enfermo, com sua saúde debilitada, nesses casos é conveniente que se fortaleça, se recupere, ou compareça ao trabalho, se possível, para receber passes, atendimento, que o ajudarão a se fortalecer, cada caso é um caso, mas a espiritualidade a tudo conduz com sabedoria e bondade.

Saber diferenciar um estado do outro, às vezes, não é fácil, é preciso perceber, conhecer seu corpo e os sintomas. Uma diferença importante, entre um e outro, é o estado emocional porque investidas contrárias costumam vir acompanhadas de pensamentos ruins, irritabilidade, preguiça, entre outras sensações negativas.

Isto posto, quando uma casa de Umbanda é alvo de ataque, ou demanda, seus colaboradores sentem as sensações acima descritas e, sem saber porque está desanimado, irritado ou posto em prova diante de contratempos, deixa de comparecer ao trabalho, cede espaço às investidas daqueles mau intencionados, mandados, pagos, ou simplesmente incomodados com os bons resultados que a casa e a corrente tem alcançado.

Por isso médiuns, estejam sempre alertas, busquem conhecer seus corpos e seus sentimentos, não se deixem iludir, pressionar, sejam honestos com vocês mesmos e tudo isso não encontrará ressonância em seu mental ou físico porque uma casa bem fechada não dá condições aos pretensos invasores.

Uma casa de Umbanda enfrentando demanda

Mais um dia de gira amanhecia para um dos tantos terreiros pelo Brasil afora, os médiuns se preparavam, cada um de sua casa, para mais um dia de trabalho, dia de servir, louvar, compartilhar.

Alguns, porém, logo ao se levantarem, sentiram "preguiça", vontade de não comparecer ao trabalho; irritados, cediam a toda e qualquer provocação. Outros sentiam dor de cabeça, enjoo, mal estar inexplicável. Outros ainda enfrentaram contratempos; chaves emperradas, objetos caindo das mãos por pura distração, coisas que tem o poder de irritar quando assim permitimos.

Na contra parte astral, espíritos maldosos não economizavam esforços para reduzir, ao máximo, o número de médiuns na corrente naquele dia programado para o ataque.

Sem dúvida eles sabiam que mesmo com todos os seus esforços, encontrariam resistência, pois, atacar uma casa dedicada exclusivamente ao bem e à caridade não é uma tarefa fácil, por isso eles costumam tentar minar as forças da corrente, investindo nas fraquezas dos médiuns.

O sacerdote, muitas vezes sente esse movimento todo e se prepara, faz suas rezas, firmezas, pedidos de proteção para a casa, para si e para todos. Ele sabe que um bom comandante não pode evitar o confronto, mas sim minimizar seus efeitos pelas decisões que ele, junto à espiritualidade que o acompanha, tomarão.

Aos poucos todos vão chegando. Mesmo os que sucumbiram às investidas e não compareceram, receberam seu axé, bençãos e proteção, mas cada um também é responsável por si, portanto, a espiritualidade tem limites, um deles é respeitar o livre arbítrio e limitações das pessoas. Esse é um grande aprendizado.

E começam os preparativos para a gira. A essas alturas, tudo vai correndo bem, sem prejuízo aos médiuns ou à corrente por conta da ação dos guardiões da casa que, assim como o sacerdote, não podem evitar o confronto, mas sim minimizar, reduzir os efeitos.

Tudo pronto, começa a gira e o primeiro sinal de alerta para aquele dia de trabalho quem dá é o sacerdote. Ele se dirige à assistência lembrando a todos que aquela é uma casa de caridade, que não faz amarrações, trabalhos pagos, que a missão da casa é instruir, mostrar caminhos e possibilidades de crescimento espiritual, lembrando que a missão da Umbanda é amor, prática do bem pelo auxilio ao próximo e a si mesmo pelo auto conhecimento.

Alguns médiuns percebem a extensão desse recado e se mantem em estado de alerta, mesmo porque o sacerdote resolve modificar a abertura dos trabalhos convocando os caboclos de Oxóssi que a principio não estavam programados para esse dia, mesmo a casa sendo regida por ele.

Nem todos os médiuns perceberam a alteração, mas os que sentiram, se colocaram em estado de atenção prontos para servir aos guias espirituais e nesse momento a batalha começou.

Caboclos de Oxóssi são guerreiros, é a especialidade deles. São eles que travam essas batalhas, irmãos de Ogum, vencem demandas e protegem a casa e a corrente agindo com extrema rapidez e precisão. Numa questão de segundos, afastaram os malfeitores e isolaram toda a área do terreiro na extensão de um quarteirão. Posicionados na entrada do terreiro, guerreiros de meia idade, com aparência de indígenas norte americanos, passaram a reforçar a guarda junto aos Exus e Oguns, evitando assim a entrada de todo e qualquer espírito que não tivesse passado pela triagem de atendimento do dia.

Disfarçado, ou quem sabe, demonstrando aos agressores sua sabedoria, através de múltiplas vivencias através do tempo, seu Marabô, Exu protetor da casa, se apresenta na seguinte roupagem fluídica: Homem jovem, cabelos e barba longos, capa marrom cobrindo todo seu corpo, na mão direita uma pena preta que ele "esfregava" no chão.

E foi só depois de todo esse trabalho que a gira fluiu cumprindo sua missão para aquele dia. Tendo a linha do Oriente para passes, e ciganos para os atendimentos individuais, foram atendidas muitas pessoas que desencarnaram vitimas de afogamento, socorro compatível com a mensagem do cigano Paco que nos pediu para orar por aqueles que estão em condições de refugiados na África. Sabemos que muitos desencarnam, no mar, em busca da liberdade e forma digna de vida e a eles mamãe Oxum veio acolher, trouxe águas mornas e doces para aplacar o frio que ainda sentiam e os alimentou, acalentou em seus braços generosos de mãe.

E assim é a Umbanda: Amor, Caridade, Luz.

Cada gira é uma história que a gente leva como aprendizado, exemplo e agradece, agradece...

Anna Pon

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